Sala de Cinema em São Paulo – um Luxo

Texo sugerido pelo amigo Magnum Freire, e escrito por: Fernando  Moraes, colunista da Veja São Paulo.

Cinema com  vinho e pipoca com azeite  trufado

Pipoca com azeite trufado,  carta de vinhos e uma poltrona em que Michael Phelps ficaria confortável.

Com vocês, as novas salas vips do Cidade Jardim.


O ingresso  aqui custa: R$ 46 reais.



Na imagem, a sala 1,  com 124 lugares: som e imagem  impecáveis.
Meu  trabalho é a diversão dos outros. Como crítico de cinema  de Veja São  Paulo há quase nove anos, assisto a cerca  de seis filmes por semana. Freqüento cinemas  semanalmente, seja nos shoppings, seja na região da  Avenida Paulista. Conheço praticamente todos os  complexos da cidade. Na semana passada, fui, curioso,  visitar as salaspremier do  Shopping Cidade Jardim, da rede Cinemark. Fiquei  boquiaberto. Foi uma surpresa atrás da outra, a começar  por um singelo pedido:

Poltronas  com 1,57 metro: dá até para tirar uma  soneca.
- Uma  pipoca, por favor.
-  Pequena, média ou  grande?
-  Pequena.
- Aceita  cobertura de azeite?
- Humm.  Vou experimentar.
-  Extravirgem, ao alecrim, alho ou  trufa?
- Trufa,  por favor.
- São 10  reais.
- Qual o  número da sua poltrona,  senhor?
-  D5.
- Eu  levo em alguns minutos.
Isso  mesmo. Tiraram a cobertura de manteiga para colocar  azeite na pipoca. Azeite engorda menos e é mais chique.  Há muitas outras coisas com grife por lá. O projeto do  lobby, por exemplo, ganhou a assinatura do arquiteto  Arthur Casas, em que os tons sóbrios predominam. O preço  do ingresso – 46 reais de sexta a domingo, após as 17  horas – justifica essa mordomia toda. No mesmo horário,  pagam-se 21 reais para assistir a um filme nas outras  cinco salas do Cidade Jardim ou no Cinemark do Shopping  Iguatemi, até então o mais caro da cidade. Mais do que  ir ao cinema, parece que os clientes estão ali para um  programa diferente, que inclui confortos mil e a  sensação do ver e ser visto. E nesses quesitos não  existe lugar melhor do que  aqui.


O saguão  projetado pelo arquiteto Arthur Casas: tons sóbrios nos  tecidos e na madeira das  mesas…
Uma  hostess conduz os espectadores ao saguão e lhes  apresenta um cardápio com salgados (11 reais a porção de  bolinho de aipim com carne-seca), cafés (2,75 reais o  expresso), cervejas (14 reais a Heineken em garrafa long  neck) e vinhos (a taça varia de 15 a 36  reais). Caí em tentação diante de uma série de delícias  preparadas com sorvete Häagen-Dazs. Pedi o apple crumb  cake (18 reais). Estava quase na última mordida quando  uma atendente me alertou: ‘Seu pedido veio errado.  Trouxe o certo’. Estava tão saboroso que nem me dei  conta de que comi brownie de chocolate no lugar de  empanado de maçã. Conclusão: duas sobremesas pelo preço  de uma. Quanta  gentileza!
Achava  que, por ter 124 lugares, a sala 1 seria um cineminha.  Que nada. É um cinemão comprido, largo e com pé-direito  que alcança 10 metros.  As vedetes são as poltronas de couro supermacio e  ultraconfortáveis. Reclináveis, possuem braços espaçosos  e descanso flexível para os pés. Esticadas, medem  1,57 metro.  Para se ter uma idéia, cada uma ocupa o espaço de três  cadeiras tradicionais. Se o filme for chato, corre-se o  risco de cair no sono. Tem também mesinha para colocar  drinques e guloseimas. Pelo espaço entre as fileiras, é  impossível alguém ficar dando pontapés na poltrona atrás  de você.


Pipoca  exclusiva: só o azeite custa 4 reais.
A projeção  e o som também são impecáveis. A aventura A Caçada me  pareceu ainda mais envolvente, sobretudo nos sustos que  tomei quando tiros eram disparados. Nesta semana, a  programação das salas vips traz o drama Um Crime Americano e o espetacular O  Procurado, que, certamente, ganhará ainda  mais pontos por ser uma eletrizante fita de  ação.
É  importante dizer que as simpáticas garçonetes param de  servir quando as luzes se apagam. Ah, sim. A minha  pipoca, aquela do azeite trufado, chegou sete minutos  depois do pedido. Veio encharcada, murcha e fria. Mas  nada como um chique lencinho umedecido – que acompanha a  guloseima – para limpar os dedos e tirar a má impressão.  Em menos de três horas, gastei, sozinho, 88 reais,  contando o estacionamento. Mas valeu cada centavo. O  duro agora vai ser sair da ficção do Cidade Jardim e  encarar a realidade nas poltronas do meu  dia-a-dia.


Cidade Jardim  Cinemark – Avenida Magalhães de Castro, 12000,  Morumbi

Ouvindo: The Brian Setzer Orchestra – Jumpin’ East Of Java